Lua Nova em Câncer
14 a 29 de julho de 2026
Comecei a escrever essa edição sentada próxima a duas malas de roupas abertas no chão. Dias depois, retomo para escrever a introdução em um café à beira de uma rua movimentada, com todo tipo de veículo subindo e descendo a ladeira em velocidade. Ao fundo, convivendo com os barulhos do trânsito e as conversas dos frequentadores do local, ouve-se clássicos do jazz na caixa de som. Indícios de viagem, ritmo de rua e gestos de movimentação embalados pelo gênero musical do improviso (que exige do músico atenção, sensibilidade e responsividade absolutas). A Lua, astro mais veloz do céu, está em sua casa no signo de Câncer, e prepara-se para unir-se ao Sol exatamente no momento em que ele desponta no horizonte, aqui no Brasil. O mundo está vivo e pulsante. Ainda bem.
Depois de uma Lua Cheia em Capricórnio, plena da aridez e da falta que endurece o corpo e os sentidos, inauguramos uma quinzena com a Lua Nova em Câncer e a promessa da novidade. A Fase Nova é úmida, carregada da potência do nascimento, do brotar da vida; uma Nova no signo de Câncer, portanto, demarca o irromper de algo benéfico que pode ser cultivado com a devida entrega e cuidado — com algumas nuances e peculiaridades sinalizadas pelos aspectos com outros planetas, é claro. Vamos a eles.
Da união entre Sol e Lua participa também Mercúrio em Câncer, retrógrado desde a última Cheia, e até o próximo 23 de julho. Esse trio ternura me lembra que a vida não é só cumprir o que se deve ou dar conta das suas incumbências — mas se conectar com alguém, expressar um desejo íntimo, se encantar pelo ridículo, se emocionar com o banal, falar pelos cotovelos, brincar pelo puro instinto de estar vivo. Quantas possibilidades habitam um corpo capaz e desejante de afetar e ser afetado? Depende, sim, do corpo — às vezes nem tão capaz, nem tão desejante. Não são todas as possibilidades que serão cumpridas, e esse freio à profusão impulsiva do trio em Câncer é indicado pelo Marte em Gêmeos que faz uma antíscia (conjunção oculta) a eles. Há algo de uma frustração em torno da ativação de Marte, disposto pelo Mercúrio retrógrado — não, nem tudo é possível, nem tão rápido como gostaria. Queria muito, mas agora me cabe o pouco. Ou queria ainda mais do que já faço agora. Não é uma frustração que paralisa, mas que põe em diálogo o possível e o impossível, neste momento; questiona e mobiliza o que é de valor fundamental para si, e também dá um encaminhamento mais racional para as promessas e vontades vívidas dos luminares e Mercúrio em Câncer.
Quadrando esse Marte, também disposta pelo Mercúrio retrógrado, aparece Vênus em Virgem, crescendo o coro da lamentação. Saudade do que não vivi, de tudo aquilo que idealizei e almejei e não pude — com um pezinho no passado e um olhar conformado em relação ao futuro, Vênus está ali, num sêxtil, à disposição dos instintos e expressões imediatistas sinalizados pelo trio em Câncer. Sem deslumbre, sem fantasia, que da noite pro dia, você não vai crescer. O melhor que ela oferece nesta quinzena é a possibilidade de seguir indo e fazendo, ainda que sem maiores expectativas. Algumas batalhas se ganham, sim, no pouco a pouco de cada dia.
Saturno em Áries, por fim, é a pedra no caminho de Sol-Lua-Mercúrio em Câncer, desejosos do movimento e novidade — mas é uma pedra no meio do curso de um rio, que nem de longe se torna obstáculo, já que a água flui e contorna com facilidade esses e outros entraves. Mais do que isso, Saturno quadrando os protagonistas dessa lunação me lembra que nossa pressa é abundante, e nossa avidez compreensível, mas que dar o tempo da coisas, com grande frequência, compensa.
É por hoje, só. Que essa Lua Nova em Câncer inaugure uma fase acolhedora, fértil e mobilizadora para vocês. Nessa quinzena, quando brotar a dúvida, guie-se pelo que faz o corpo se sentir melhor. Que seja ele a bússola.



