Há algum tempo convivo com um certo incômodo em torno de escrever previsões coletivas. Sendo honesta, escrever publicamente sobre astrologia mundana é um ofício que sempre veio acompanhado de alguma apreensão. Afinal, esse é um ramo da astrologia que trata da coletividade, do que afeta a todos nós — e daí, prever eventos e acontecimentos que impactam nossas vidas, mas sobre os quais dificilmente temos controle ou capacidade real de ação, é, no mínimo, complexo. Prever ajuda? De que forma? Para o quê, exatamente?
Comecei a estudar e pesquisar astrologia mundana numa busca meio desesperada por esperança. Estávamos no governo Bolsonaro e eu precisava olhar para a frente e ver possibilidade de luz no fim do túnel. Eu não esperava descobrir e aprender tanta coisa, ver as técnicas e os mapas darem tão certo; as eleições de 2022 foram um marco na minha trajetória astrológica, e acertar aquele resultado foi das previsões mais importantes que já fiz. Nessa época, tudo para mim tinha ares de novidade, e eu comecei a escrever mais previsões coletivas na newsletter como uma forma de compartilhar o que eu aprendia. E como não dava pra ensinar tudo que eu aprendia por escrito, comecei a oferecer oficinas e organizar turmas para estudar e praticar junto — especialmente porque a mundana parecia ser uma parte da astrologia menos praticada, com muitas lacunas teóricas e dúvidas ao redor das técnicas utilizadas.
Vida vai, vida vem, e minhas incursões acadêmicas começaram a atrapalhar a carreira de astróloga, já difícil de conciliar com a de designer e artista visual. A newsletter foi diminuindo, os atendimentos e oficinas também. Mas seguimos, escrevendo e publicando a Meio do Céu, com uma leitura mais subjetiva dos trânsitos astrológicos e menos foco em previsões, por conta dessa certa indisposição para escrevê-las.
Daí veio a Copa do Mundo. Eu nunca me envolvi tanto com uma Copa quanto esse ano. Vi jogos de países com os quais pouco me importo. Acompanhei o chaveamento, as escalações, as estatísticas. (Sigo acompanhando, terminando de escrever essa edição entre um jogo e outro.) Anunciei aqui mesmo, em edições passadas, que escreveria previsões sobre o campeonato, como fiz em 2022 e 2023. Mas os dias foram passando, e a edição não saía. E eu seguia assistindo os jogos. Quanto mais jogo assistia, mais propaganda de bets eu via de tabela. E a cada mapa de jogo que eu abria, menos vontade tinha de escrever sobre. Para além do óbvio risco de erro de interpretação — prever resultado de jogos esportivos é difícil —, começou a me incomodar a atmosfera especulativa em torno do campeonato. Como se especulação astrológica estivesse andando em paralelo com a especulação das casas de aposta — ainda que, a priori, mundos bastante diferentes.
A ironia desse paralelo é que fazer previsão coletiva nunca me rendeu dinheiro, é claro. Não diretamente, não de forma significativa; mesmo no auge de assinantes pagos e da frequência da newsletter, a receita nunca foi suficiente para pagar as contas. Se eu quisesse fazer uma virada nesse sentido e transformar isso em um negócio viável, eu provavelmente teria que radicalizar numa direção bem diferente da reflexiva-didática que eu vinha trilhando: produzir mais, com mais frequência, publicizar mais, prever mais, acertar mais. Entrar no jogo do algoritmo. Nunca foi do meu interesse. (Cá entre nós, faz tempo que eu acho que precisamos mais destruir conteúdo do que criar.) Só que aí, mais recentemente, as coisas mudaram de figura. Hoje, no sagrado ano de 2026, existe o chamado mercado de previsões.
Mercados preditivos são, basicamente, grandes “bolsas de apostas” sobre eventos futuros. Atualmente, é possível fazer apostas sobre qualquer coisa — quem vai ganhar o Nobel da Paz, as eleições em determinado país, se o casamento entre duas celebridades vai terminar. Eu já tinha ouvido falar sobre esse tipo de coisa, mas eu só ganhei dimensão do tamanho e poder desses mercados mais recentemente.
Veja bem, fofoca existe há muito tempo; mas pessoas literalmente ganhando dinheiro com apostas sobre a vida alheia é uma certa novidade. O mercado de previsões vem crescendo globalmente nos últimos anos e opera numa lógica de que, onde há divergência de opinião, há possibilidade de financeirização. É a precificação de eventos, é a vida toda virando mercado. Tais mercados são uma preocupação de interesse público por mil razões: o sistema se alimenta de manipulação, informação privilegiada e da disseminação deliberada de desinformação; evidentemente, há questões éticas profundas envolvendo a vida de terceiros. E, no fim, o estrago é brutalmente econômico: quem mais perde dinheiro é justamente quem menos tem. Nenhuma novidade por aqui.
Só que, quando essa realidade se apresenta para uma pessoa que trabalha com oráculo, treinada para fazer previsões, a coisa fica muito mais sinistra. Frente à financeirização de previsões sobre qualquer coisa, é preciso se perguntar: será que eu quero alimentar essa máquina especulativa que já saiu do controle? Tenho domínio sobre o uso que farão das informações que eu colocar no mundo? A resposta para ambas as questões, claro, é não.
Qualquer pessoa que se envolve com um oráculo corre o risco de perder a mão no uso dele. Quem nunca se meteu com tarot e tirou cartas pra responder uma questão ridícula, que atire a primeira pedra. Ter à mão uma ferramenta que potencialmente esclarece dúvidas e cenários de incerteza é extremamente útil. E como vivemos em tempos cada vez mais incertos e ansiosos, o oráculo vira um parceiro fiel. Eu não estou aqui para julgar o uso pessoal do oráculo de ninguém, por óbvio. Uma coisa é você abrir um tarot para ver se quer ou não tomar uma atitude na sua vida particular; o problema e as consequências são inteiramente seus.
A grande questão é quando essa ansiedade humana, essa nossa fissura por tentar antecipar e domar o futuro, acaba capturada pelo mercado. A lógica das apostas se alimenta exatamente da fragilidade que o oráculo, em seu pior uso, pode causar: a ilusão de controle. Como já escrevi por aqui em outra edição,
Esse é um dos grandes riscos que os oráculos podem trazer às mentes mais inquietas e sugestionáveis — a ilusão de que, tomando conhecimento de previsões e sabendo o que pode ocorrer à frente, teremos domínio sobre o que irá ocorrer. Mas o oráculo astrológico apenas revela a qualidade do tempo à frente, não nos dá poderes especiais sobre ele; tomando conhecimento ou consciência sobre os eventos, o que está sob o nosso domínio e responsabilidade são apenas as decisões que podemos fazer a respeito deles. [trecho dessa edição]
O oráculo indica as condições do tempo, o que está dado a acontecer sem maiores interferências. O que fazemos com isso, ou a partir disso, é nosso. E, bom, fornecer previsões coletivas para que elas virem fichas em um cassino de apostas é entregar o oráculo para quem não quer habitar o tempo, nem se responsabilizar por suas ações sobre ele — quer apenas lucrar com a incerteza ao seu redor.
Mas para que serve a astrologia, então?
Escrevi repetidamente sobre isso em diversas ocasiões, mas a minha edição preferida talvez seja uma em que faço um paralelo entre um episódio de Steven Universe e a metáfora náutica — um paradigma muito utilizado por vários astrólogos do período helenístico. A ideia, enfim, de que o céu é um mapa para navegar o destino, não uma sentença traçada à nossa revelia.
Só que o mapa, sozinho, não move o barco; para navegar, é preciso conseguir imaginar para onde se quer ir. No episódio Calma Urgente: Prevendo a Falta de Futuro, de dezembro de 2025, dedicado justamente à pauta dos mercados preditivos, Alessandra Orofino fala sobre “trabalhar por futuros cada vez mais improváveis” e questiona: como que a gente toma decisões sobre o mundo que a gente quer ver, de forma mais efetiva? Os apresentadores do podcast chegam ao ponto de que, para trabalhar em prol desse tal mundo, é preciso deixar o cinismo um pouco de lado. É preciso imaginar outras possibilidades de futuro que não sejam as de aniquilação, ou aquelas de maior probabilidade precificadas na casa de apostas.
Eu concordo, porque entendo que, quando falamos em imaginar, não se trata de sonhar ou flutuar no campo das ideias vagas: trata-se da clareza de que só é possível desejar e construir aquilo que a gente consegue conceber. Eu acredito fielmente que a falta de imaginação vai, pouco a pouco, minando as possibilidades de vida e de reinvenção do mundo.
E também acho que é preciso cultivar a capacidade de improviso e de reinvenção frente ao que nos surpreende, ao que nos pega desavisados. E o problema, aí, é que o excesso de previsão vai aniquilando aos poucos esse devir criativo, atento e responsivo à própria vida. Se o futuro está todo mapeado, precificado e apostado, o que sobra para nós?
A astrologia, como qualquer outro conhecimento humano, pode ser capturada para consolidar visões rígidas, atestar fatalismos e manipular percepções sobre as coisas. Mas ela também pode, e deve, ser o avesso disso. Para orientar, não para restringir; para nos ancorar no presente, em vez de nos jogar num futuro hipercalculado. Uma ferramenta que nos ajude a ler o contorno dos dias com mais lucidez, para que a gente possa responder à vida com presença e responsabilidade.
Enquanto pessoa que compartilha ideias e um tipo de conhecimento na internet, me sinto bastante responsável sobre o que eu escolho colocar no mundo. Eu espero genuinamente não contribuir para o excesso preditivo, para o lixo informacional e para a ansiedade coletiva. É uma batalha essencialmente perdida? Pode ser. Mas cabe a mim insistir.
A astrologia é indissociável da minha forma de pensar e perceber o que ocorre à minha volta; ela molda a minha lente sobre a realidade. O que me parece necessário mudar, a partir de agora, é o uso que faço dessa linguagem em relação ao que escolho compartilhar publicamente. Seguirei com a newsletter — mas talvez, enfim, a Meio do Céu se torne cada vez mais burburinho.
(Esse texto só saiu por conta de conversas e desabafos importantes que eu tive com Marina e com Pedro. Obrigada, queridos.)
Um beijo e até!








Adorei a reflexão!