edição #114, Ingresso do Sol em Áries
O Sol ingressou em Áries: é outono no sul, primavera no norte, e mais um ano novo se inicia. Áries é o primeiro signo do zodíaco e, do ponto de vista astrológico, o recomeço deste ciclo é uma renovação de possibilidades. Na astrologia mundana, que se dedica ao estudo dos movimentos do céu em relação aos eventos coletivos, esse ingresso é o ponto de partida para tecer qualquer avaliação de conjuntura sobre um local. O momento exato em que o Sol deixa o signo de Peixes e entra em Áries é o mesmo no mundo todo, mas as diferentes coordenadas geográficas geram mapas diferentes entre si — e é a partir deles que analisamos os símbolos, as posições, e as comparamos com outros mapas relevantes para delinear previsões para o país em questão.
Ler e interpretar o céu é essa prática terrivelmente humana de tentar narrar, por meio de uma linguagem simbólica, o que se vive e se vê aqui na Terra. Não sei explicar como ou por quê a astrologia funciona, mas, desde que me iniciei nesse ofício, dez anos atrás, tive demonstrações suficientes para me provar seu valor (nunca fui cética, mas sou desconfiada). Enxergar o mundo pelas lentes da astrologia é aprender um idioma no qual você sabe que nunca será propriamente fluente, porque há partes dele indecifráveis — e que, ainda assim, vale a pena tentar. Seja pra tentar prever o futuro, para elaborar fatos passados e ou para abrir espaço para imaginar novas possibilidades, a linguagem astrológica serve pra tudo isso. É fascinante, eu adoro, e estava com saudades de escrever aqui.
Fazer previsões coletivas no ano de 2026 é uma proposta no mínimo ousada, então gostaria de começar preparando o terreno e explicando um pouco sobre de onde viemos, para onde vamos. Astrologicamente falando.
Uma história de Saturnos: de Aquário a Áries
Eis um breve um resumo: em dezembro de 2020, entramos definitivamente na chamada Era do Ar, um período de duração de 240 anos associado a esse elemento. Tal era encerra uma anterior, relativa ao elemento terra, iniciada lá no século 19 e que, não por acaso, correspondeu ao princípio do capitalismo industrial. Essas Eras relativas aos elementos são como um pano de fundo relevante para tudo que observamos envolvendo a coletividade hoje. Enfatizo o “definitivamente” no início do parágrafo porque a atual a Era do Ar se iniciou ainda nos anos 1980, com uma primeira conjunção entre Júpiter e Saturno no signo de Libra, mas a transição entre eras é gradual. Retomando um trechinho da edição #78,
desde 1980, com o primeiro passo dado nesse novo ciclo coletivo, vimos a tecnologia e a informação se desenvolverem de modo irrefreável. Até de forma literal, vimos a tecnologia diminuindo sua materialidade mais concreta e alcançando a dimensão aérea, com a substituição progressiva de cabos e hardwares pesados pelo bluetooth, o wi-fi, o comando por voz, etc. Com a ampliação do acesso à internet a partir dali, a comunicação nunca mais foi a mesma. Faz algumas décadas que vivemos a era da informação, da abstração e da volatilidade típicos do elemento ar, e já estamos bem familiarizados com essa realidade.
E aí, dentro dessa longa Era do Ar (lembremos: 240 anos de duração!), Júpiter e Saturno vão seguir se encontrando, a cada vinte anos, sempre em signos de ar. A última foi justamente lá em 2020, em Aquário.
Saturno transitou em Aquário de dezembro de 2020 a março de 2023. Em seus plenos domínios, Saturno aqui deu vazão a seus significados mais fundamentais: o controle indireto, o poder invisível, o isolamento, as máscaras. Foram tempos de pandemia global, da ascensão do capitalismo de vigilância, de disseminação de fake news por meio de robôs e de uma transformação gradual, dissimulada e irreversível na nossa formas de comunicação e consumo de mídia. A mudança de lógica algorítmica nas redes sociais é fruto desse trânsito, e dominou até nossa cognição; pode ser difícil lembrar, mas a internet nem sempre foi um local tomado por conteúdo comercial, vídeos curtos impulsionados e recomendações baseadas em interesse.
Em 7 de março de 2023, Saturno ingressou em Peixes, signo que atravessou (com uma breve intermissão em Áries) até 13 de fevereiro de 2026. Signo que é domicílio de Júpiter e exaltação de Vênus, Peixes deu à Saturno uma guinada para os temas de diversão e relaxamento. Aspectos positivos desse trânsito foram a valorização do descanso e do ócio, e também o ganho de força e visibilidade de críticas sobre o sistema trabalhista, por exemplo com a defesa do fim da escala de trabalho 6x1 e o movimento Vida Além do Trabalho. Por outro lado, também, Saturno em Peixes trouxe a epidemia de apostas e jogos de azar:
É especialmente ilustrativo pensar que tais práticas facilmente ocasionam em dependência e isolamento (Saturno-Vênus) provocados pelo vício, mas que são motivadas pela promessa de “dinheiro fácil”, sem esforço de trabalho, divulgados por influencers e subcelebridades (o tom Júpiter-Vênus da coisa toda). [trecho da edição #111]
O avanço das tecnologias de inteligência artificial, em especial a generativa, também são de Saturno em Peixes — que, apesar do nome, pouco têm de “inteligente” de fato, tratando-se mais de modelos de linguagem que simulam uma inteligência coletando e amalgamando informações, dissolvendo suas fontes. A mistura é inseparabilidade de elementos é uma qualidade do signo de Peixes, a água mutável.
Falando em água, IA consome água, e muita — a crise climática seguiu em pleno curso, e um trânsito que deveria ter sido sobre adaptação e mudança para novos modelos energéticos não se deu dessa maneira. Como escrevi lá na edição #78, no comecinho de Saturno em Peixes,
as estruturas que não se transformarem a ponto de possibilitar a manutenção da vida tendem a ruir e perecer.
E assim chegamos a Saturno em Áries, um trânsito iniciado no último 13 de fevereiro, e que segue até 12 de abril de 2028. Em termos técnicos, dizemos que Áries é a queda de Saturno; significa que ele perde força nesse signo, ou encontra-se num terreno avesso ao seu modo de ação costumeiro. Não raro, uma “queda” astrológica pode ser um tanto quanto literal, e daí vem o temor de que o trânsito de Saturno em Áries pode indicar algum tipo de colapso. Como escrevi ano passado na sua primeira breve passagem por lá,
o trânsito de Saturno em Áries tende a frear o impulso de crescimento progressivo e acelerado que tem sido a ordem econômica neoliberal. [edição #113]
Agora, já há algumas semanas desde que esse período começou, temos indícios fortes de como isso pode acontecer. Saturno em Áries é um anúncio preciso do risco de colapso energético; a extensão e gravidade disso é algo a ser analisado com cautela, pois envolve muitos fatores e regiões. Em termos simbólicos, porém, a qualidade do tempo que vivemos é essa: com Saturno em Áries, a dependência de combustíveis fósseis, central a grande parte dos conflitos atualmente em curso no mundo, chega ao seu limite. (Diga-se de passagem, o próprio petróleo, composto por matéria orgânica acumulada em corpos d’água durante milhões de anos, é da natureza de Saturno). Esse gargalo parece se tornar crítico já no fim de março, quando a conjunção Sol-Saturno em Áries sinaliza uma pressão direta sobre as fontes de energia; podemos pensar numa alta significativa no preço do petróleo e dos combustíveis nesse período.
Como também escrevi na edição citada acima, “um significado bem estabelecido de Saturno em Áries é o da imposição de autoridade por meio da força". É um tempo que favorece o conflito, não o diálogo e a ponderação — algo bem nítido, dado os eventos recentes. Outros tipos de quebra e colapso de estruturas podem ser observados durante esse trânsito, especialmente aqueles que se deram em condições de crescimento desmedido, na forma ascensões meteóricas ou que não possuem devida infraestrutura para suportar seu funcionamento. Um estouro da bolha da Inteligência Artificial — com queda súbita nas ações devido a baixo retorno, investimento circular entre empresários e falta de rentabilidade — é bastante possível. Entre os dias 19 e 20 de abril, o céu fica especialmente carregado com uma sequência de conjunções em Áries (Marte-Saturno, Mercúrio-Saturno e Mercúrio-Marte), potencialmente apontando para crises envolvendo conflitos e/ou questões tecnológicas.
Pra encerrar essa seção num tom menos pavoroso, replico um último trechinho mais esperançoso sobre esse trânsito:
O sentido mais vantajoso de Saturno em Áries, a meu ver, é o da revelação, no sentido de tornar nítido e visível o que antes estava dissimulado, ambíguo ou escondido. As coisas ganham contorno, fica possível chamá-las pelo nome que elas têm. No geral, me parece um trânsito de agressividade política, reconfigurações territoriais e lutas por emancipação. Esse é um tempo em que as coisas não se resolvem no jeitinho, mas no pé na porta. Não que isso seja uma orientação — mas é importante ter em mente que, em tempos de Saturno em Áries, pode ser mais adequado operar com coragem e iniciativa do que com cautela e dedicação. [edição #113]
Esta edição foi finalizada logo após uma oficina que ministrei sobre o Ingresso Solar em Áries. As previsões aqui escritas tiveram colaboração direta da discussão coletiva desse encontro, em que participaram ao vivo Ana Abreu, Bia Cardoso, Carol Braga, Diego Piu, Fabiane Falcão, Isabelle Fernandes, Juliana Hereda, Juliana Monteiro, Marina Bohnenberger, Marina Stravato, Patricia Guedes da Silva, Pedro Joffily e Rafael Monteiro. Valeu, turma!
O Ingresso Solar em Áries no Brasil
Tal como em nosso último ano eleitoral, o mapa desse ano para o Brasil traz o ascendente em Gêmeos, regido por um Mercúrio em Peixes de casa 10, descortinando o óbvio tema da disputa de poder que ocorrerá. Apesar de sua expressividade no cenário brasileiro atual, o planeta que assume a regência principal para o Brasil esse ano é Júpiter, atualmente no signo de Câncer. Mercúrio, aqui, entra como um co-regente.
Para o Brasil, o ano é marcado pelo contraste entre o senso de garantia e proteção de Júpiter e as instabilidades e flutuações de Mercúrio. Ao mesmo tempo em que o mapa desenha um cenário de relativa segurança econômica para o país, as engrenagens da política interna e da infraestrutura energética externa passam por estresses.
Se 2025 foi um ano de foco econômico pelo apelo popular e comida no prato, neste ano, com Júpiter exaltado em Câncer na casa 2 junto ao Lote da Fortuna, os números apresentam resultados que beneficiam o governo. úpiter também favorece o investimento estrangeiro qualificado, que enxerga no país um porto (relativamente) seguro em meio ao caos global, especialmente no primeiro semestre — a exemplo da China, que tem o melhor mapa do ano entre as potências globais, e tem feito investimentos em tecnologia agrária e parcerias com movimentos sociais.
Ainda que insuficiente, o trânsito de Júpiter em Câncer reforça a tendência de políticas públicas voltadas à proteção social e trabalhista, especialmente no que tange aos mais vulneráveis (a PEC para o fim da escala 6x1 e o ECA Digital são bons exemplos). Nos últimos meses, a prisão de Bolsonaro e a condenação dos mandantes do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes também se refletem nos efeitos desse trânsito. O mesmo Júpiter também favorece o fortalecimento de certa tradição e autoridade no setor econômico e financeiro, com a prevalência de grandes bancos sobre as fintechs. O escândalo do Banco Master se reflete nesse mapa principalmente na casa 11, mas vemos pela casa 2 um reforço na credibilidade e na segurança que apenas as instituições mais sólidas podem garantir.
Em 30 de junho, Júpiter ingressa em Leão, enfatizando liderança e proeminência nas relações internacionais. Aliás, frente ao derretimento de instituições tradicionais como a ONU, a Vênus a 17º de Áries (em trígono exato à Vênus natal do Brasil) exige que o país troque a conciliação passiva por uma postura mais assertiva, de dar as cartas no jogo das relações internacionais e garantir sua relevância. Num clima globalmente tenso e conflituoso, porém, esse não é um malabarismo simples.
A casa 10 do mapa surge com Mercúrio e Marte em Peixes. Esses dois devem dar trabalho: Marte está no grau 14º, fazendo uma oposição exata ao Sol natal do Brasil em Virgem. Isso se traduz em ameaças diretas à autoridade vigente e em uma pressão constante por mudanças estruturais no poder. Como essa movimentação ocorre em um signo de água, a exploração de petróleo e recursos naturais em águas profundas se torna numa pauta central e estratégica, mas a debilidade de Mercúrio em trígono à Júpiter alerta para problemas e dificuldades nessa frente.
Por outro lado, a estrela fixa Achernar, à qual Marte está conjunto, carrega o significado de queda de figuras de “agitadores” que instauram o caos (ela é associada ao mito de Faetonte, que é punido por um raio de Zeus depois de causar horrores com a carruagem de Hélio, o Deus-Sol). Já Mercúrio, conjunto ao nodo norte e no fim de sua retrogradação, mostra um governo que demora a engrenar sua narrativa, parecendo sempre um passo atrás das crises. A conjunção Mercúrio-Marte em Peixes também indica riscos climáticos de inundações, com tempestades e chuvas violentas (riscos que podem ser mapeados e analisados a cada lunação).
Por fim, o fervo da casa 11: Sol, Saturno, Vênus e Lua se encontram nesse local, no signo de Áries. Enquanto o Poder Executivo está relativamente protegido por Júpiter, o Parlamento brasileiro atravessa um período de baixa imunidade institucional. A casa 11 aparece congestionada, sugerindo um Congresso que é, ao mesmo tempo, motor de crises e palco de vexames. Sol e Saturno, em uma conjunção próxima, parecem expor um embate de egos entre figurões e também a tentativa de acobertamento de escândalos maiores. Como Saturno está combusto e ofuscado pelo Sol, é como se alguma autoridade operasse nas sombras, sob um clima que favorece o que é feito por debaixo dos panos. Em contraponto, a presença de Lua e Vênus exilada sugere a relevância de temas de ordem íntima ou financeira, drenando o capital político da casa do Poder Legislativo. Com os dois planetas indicadores de poder em condições prejudicadas, esses escândalos tendem a atingir em cheio figuras que representam o velho patriarcado ruidoso do Congresso, podendo estender essa instabilidade inclusive a governadores e prefeitos. Vamos observar.
Enfim, o primeiro semestre de 2026 nos exige paciência com as instabilidades e também coragem para fortalecer o que nos mantém. É um tempo de remendar redes enquanto as águas sobem, confiando que o lastro de Júpiter pode nos manter firmes frente às turbulências (e que usar um mapa pode nos livrar de riscos maiores). Pensar sobre esses símbolos, compartillhar meus achados nas oficinas e escrevê-los aqui me permite ganhar perspectiva diante da imensidão do mundo e dos nós da nossa realidade. Agradeço imensamente pela companhia e pela curiosidade de quem continua lendo e alimentando este espaço. Desejo que esse novo ciclo nos traga o discernimento necessário para as próximas travessias, e solo fértil para a esperança crescer. Um feliz ano novo para nós!
abraço,
Ísis
para apoiadores: leitura das lunações
Esse ano, pretendo retomar edições exclusivas para apoiadores (sou muito grata a quem manteve sua assinatura, mesmo durante esse longo hiato) com uma leitura mais rápida e prática sobre o céu da lunação. Isto é, quinzenamente, a cada Lua Nova ou Lua Cheia, apoiadores receberão um texto exclusivo sobre o céu daquele período. A ideia é experimentar um formato mais leve-poético-corriqueiro, mantendo frequência e proximidade por aqui. Vamos?
Como tivemos Lua Nova agora há pouco, já amanhã, segunda-feira, chega a primeira edição. Quem ainda não apoia, fica a dica :)
A newsletter meio do céu é gratuita, mas você pode se tornar um assinante pago e apoiar o meu trabalho.
Apoiadores recebem edições quinzenais excusivas sobre o mapa da lunação e eventuais edições especiais com outros estudos e análises astrológicas. Quem apoia financeiramente pode optar pela assinatura mensal (cobrada a cada mês) ou anual (pagamento único, com um descontão). Para se tornar assinante pago, basta atualizar o status da sua assinatura nas configurações da sua conta do Substack.





